Quanto Você Poupa por Mês?!

Quanto você poupa por mês?! Zero?! Não se assuste, você faz parte de uma terrível estatística brasileira: quase seis em cada dez brasileiros (56%) não só não poupam como não têm nenhum tipo de reserva financeira para encarar a velhice, segundo pesquisa da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). O levantamento da Anbima mostra também que apenas 21% dos brasileiros vêm se preparando de alguma forma para a velhice. Eles declararam que os recursos para suas aposentadorias virão do salário que recebem hoje. No universo de precavidos, 10% disseram que pretendem utilizar, por exemplo, dinheiro de aplicações financeiras para enfrentar o futuro. Outros 8% afirmaram que poderão contar com recursos de plano de previdência privada e 4% responderam que receberão aluguéis de imóveis que possuem.

Outra pesquisa, encomendada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), mostrou que o consumidor brasileiro não tem o hábito de poupar dinheiro e, quando poupa, é para consumir ainda mais e não para formar um fundo de reserva. Além disso, o estudo revela que, entre aqueles que têm o hábito de guardar dinheiro, a maioria tem perfil conservador e prefere investimentos mais seguros, que não ofereçam muitos riscos, como a caderneta de poupança. A maioria dos entrevistados (54%) afirmou que não conseguiu guardar qualquer quantia, 42% disseram que conseguiram juntar alguma coisa e 3% não souberam responder.

Na semana passada, realizei na minha conta de Twitter uma enquete para meus seguidores com a seguinte questão: “Qual é o seu percentual médio de poupança mensal?”. O resultado da enquete você pode encontrar abaixo. Note que a grande maioria poupa um valor acima de 10% da renda mensal. Apenas 17% dos que responderam a enquete não estão poupando por estarem endividados.

Mas não se engane, este resultado não revela o comportamento geral do brasileiro. A enquete acima foi respondida por pessoas que me seguem no Twitter, e que são na sua maioria investidores do mercado financeiro. Portanto, pessoas que possuem uma educação financeira superior à média do povo brasileiro. As pesquisas da Anbima e do SPC é que revelam o comportamento da maior parte dos brasileiros.

Gratificação Imediata

O brasileiro é imediatista e tem baixíssima tendência à poupança é o que revela um estudo que mede o excesso de peso dado ao presente – o que os economistas chamam de “present bias”, ou, em termos simples, imediatismo. O resultado do estudo é relevante porque indica a resistência das pessoas a abrir mão de consumo no presente em troca de poupar e elevar recursos no futuro.

O estudo feito por Brito mostrou imediatismo forte em todas as faixas da população, mas maior entre os menos escolarizados e menos ricos. Uma explicação pode ser a “psicologia da pobreza”, mostrada em experimentos internacionais recentes.

“A preocupação com as contas no fim do mês captura atenção, memória e controle de impulsividade, fazendo focar o curto prazo e cometer erros que perpetuam a pobreza”, afirma um dos pesquisadores.

Em estudo realizado por um grupo de pesquisadores e publicado no livro “Consumo na Base da Pirâmide” foi constatado que os problemas financeiros vividos pelas pessoas pobres originavam-se tipicamente de eventos inesperados que rompiam a linearidade do dia-a-dia. Como exemplo: desemprego, redução de renda, gravidez, separação, doença ou morte. O resultado era a inadimplência ou o pagamento da dívida. A análise de relatos mostra uma sequência de eventos negativos que agravavam a situação:

Nilda: Prestações > desemprego > inadimplência > aumento da família > novo emprego com redução de renda > nome sujo

Juciara: Empréstimo para obra > desemprego > agiota > pagamento de dívida

Aleixo: Empréstimo para conserto da Kombi > roubo da kombi > perda do ganha-pão > agiota > ameaça de morte > venda da casa

Por que as pessoas pobres então não se encontram preparadas para esses eventos, que são, de certa forma, previsíveis?

Hipótese 1: Não há sobras o que impossibilita a poupança

Para esta hipótese foi verificada uma incoerência no padrão comportamental dos entrevistados, pois ao mesmo tempo que afirmavam não terem sobras, utilizavam-se de cartões de prestações. Esta capacidade de pagas prestações e juros é chamada de “poupança invertida”, por mostrar a capacidade de fazer sobrar quando preciso. Em suma é a preferência do indivíduo de acumular bens em vez de poupar.

Hipótese 2: Consumismo ou consumo compensatório

Alguns autores observam que a inadimplência dos pobres encontra-se frequentemente associada a consumismo (gastar mais do que pode) ou consumo compensatório (adquirir bens como forma de compensar as dificuldades da vida). Porém os relatos dos entrevistados mostra que são os eventos inesperados (desemprego, doença, divórcio…) que geram o desequilíbrio financeiro.

Hipótese 3: Gratificação imediata x gratificação postergada

Em síntese, a gratificação imediata explicaria o fato das pessoas não acumularem reservas. A gratificação imediata está relacionada à pouca resistência do ser humano em resistir às tentações da vida. Isto nos leva ao clássico literário Odisseia, que é a sequência de Ilíada e ambos são poemas épicos da Grécia Antiga atribuídos a Homero. A palavra odisseia passou a significar, na maioria das línguas, qualquer viagem longa e difícil com características épicas (qualquer semelhança com a vida de cada um é mera coincidência). Na Odisseia de Homero, este trecho exemplifica as dificuldades de se resistir às tentações da vida:

“Iniciada a viagem de volta, Odisseu e sua tripulação passaram pelas costas da Sicília, terra das sereias. As sereias eram ninfas marinhas que tinham o poder de enfeitiçar com seu canto todos que o ouvissem, de modo que os infortunados marinheiros sentiam-se irresistivelmente impelidos a correr para elas atirando-se no mar, onde encontravam a morte. Instruído por Circe, Odisseu ordenou que todos tapassem os ouvidos com cera. Curioso em ouvir o canto das sereias, mas não querendo correr perigo, pediu que o amarrassem no mastro, proibindo-os de soltá-lo sob qualquer pretexto, nem que ele próprio pedisse, até terem passado pela ilha. Essas instruções não foram inúteis, pois ao ouvir as doces vozes e as promessas sedutoras das sereias ele ordenou várias vezes que o soltassem; felizmente, os marinheiros não o fizeram. E assim todos conseguiram resistir, embora não facilmente, às tentações do canto das sereias.”

A explicação seria que as classes sociais mais baixas buscariam a gratificação imediata (baixa resistência às tentações) em detrimento da gratificação postergada (alta resistência às tentações). Porém, o estudo não constatou a dominância de visão de curto prazo. As pessoas faziam planos concretos para o futuro como adiar filhos ou privação de consumo para aquisição de casa própria. No entanto, não se descartou a gratificação imediata como tendo certo peso nas decisões dos entrevistados.

11 comentários em “Quanto Você Poupa por Mês?!

  1. A virada Responder

    Muito bom o artigo. Acho que na verdade não existe nenhum motivo para não poupar. Eu convivo com pessoas de baixa renda e vejo que alguns conseguem poupar e ter uma vida minimamente estável, inclusive com reserva financeira, enquanto outros vivem numa pindaíba sem fim. Então realmente é questão de hábito.

  2. Tubarão Investidor Responder

    Muito Bom! Respondi essa pesquisa e estou dentro das estatísticas, mas realmente, o Brasil fora da rede da finansfera é outro.

    Aproveitando, Eu sou o Riquinho, voltei à postar (e agora com a força toda), mas mudei o nome do blog para Tubarão Investidor. Como sempre, você está no meu blogroll.
    Se puder atualizar meu site no seu blogroll eu agradeço!

    #TubarãoInvestidor #NãoSouSardinha #Rumoaomilhão

    Blog – http://www.tubaraoinvestidor.wordpress.com
    Instagram – @tubaraoinvestidor
    Twitter- @tubaraoinvest

  3. Dinheiro Investimento e Lazer Responder

    Devida ter mais alternativas o questionário. Devia ter alternativas de 10% em 10%, tipo 10%, 20% 30%…

    Ter uma alternativa de 10% a 40% é demasiado grande, já que é completamente diferente uma pessoa poupar 15% ou 35%. Quem poupa 35% chega a independência financeira bem rápido.

    Abraço e bons investimentos.

  4. Simplicidade e Harmonia Responder

    Uó,

    “Por que as pessoas pobres então não se encontram preparadas para esses eventos, que são, de certa forma, previsíveis?”
    Eu percebo um certo exagero de otimismo, o que de certa forma leva as pessoas a acreditarem que tudo vai dar certo – tal pensamento as leva a consumir mais e mais e ignorar a necessidade de uma reserva de emergência, de poupança e de investimentos.

    Em relação a gratificação imediata, o marketing agressivo acaba gerando a ilusão de que consumir resultará em felicidade, status, etc… Como o André disse, assistir o vídeo do marshmallow é um bom início.

    A propósito, estou recomeçando a postar em meus outros blogs, se quiser ver:
    Simplicity Forever
    A Bíblia na vida diária

    Boa semana,
    simplicidadeeharmonia.com

  5. Dividendos For Life Responder

    Concordo com o viagem lenta. Deveria ser obrigatório uma matéria de educação financeira no colégio.
    Já tá mais do que testado que funciona.. vide Cingapura. Só que é mais interessante mostrar resultado de curto do que longo prazo, então fica isso aí.
    abraço

  6. Poupador do Zero Responder

    Tava nessa pegada de gastar tudo que ganhava. Cheguei num ponto de inflexão que não tem mais como ficar da forma como estou hoje ou vou acabar totalmente insolvente.
    Falta muita educação financeira. Ainda bem que existem blogs como estes.

  7. Anônimo Responder

    Lembrando que a média salarial do brasileiro é de 2200 reais. Com esse salário só sendo solteiro, sem filhos, sem carro e morando com os pais para conseguir poupar algo.

    Qualquer coisa além do absoluto básico já consome o salário.

  8. Viagem Lenta Responder

    Fala Uó!

    Veja que as três hipóteses que listou exacerbam um único ponto: falta de educação financeira.

    1) Desconhecer o perigo de possuir dívidas e o absurdo das taxas brasileiras;
    2) Falta de reserva de emergência;
    3) Não ter conhecido a pesquisa de Walter Mischel e assistido o vídeo do Marshmallow rsrs

    Abraço!

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