Violência no Espírito Santo – O Poder Hobbesiano: O Estado é o “Bombeiro” e o “Piromaníaco” da Vida Social

Estamos presenciando o drama do Espírito Santo que vive uma onda de violência desde a madrugada do último sábado. Em apenas três dias, 62 mortes violentas foram registradas, ônibus foram incendiados e um posto da PM foi queimado. Vários arrastões e arrombamentos em lojas e pontos comerciais foram registrados. Na tarde de ontem o Exército começou a tomar as ruas da Grande Vitória. A força armada foi acionada por causa da grande quantidade de atos criminosos que ocorre desde sábado quando famílias de militares começaram a impedir a saída de viaturas dos quartéis.

Os familiares – esposas de policiais na maioria – protestam no lugar dos PMs, já que estes são proibidos pelo Código Penal Militar de fazer greve ou paralisação. A pena para o policial militar que participar em atos desse tipo pode chegar a dois anos de prisão. Os manifestantes reivindicam reajuste salarial, o pagamento de auxílio-alimentação, periculosidade, insalubridade e adicional noturno, além de reclamarem do sucateamento da frota e da falta de perspectiva dos agentes.

A falta de policiamento e o caos que se instaurou na cidade levou a prefeitura de Vitória a suspender o início do ano letivo na rede municipal e também determinou o fechamento de todas as unidades de saúde. Na manhã de ontem, o presidente Michel Temer autorizou o envio das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública ao Estado. A Justiça decretou o movimento ilegal e já determinou que os manifestantes saiam das portas dos quartéis. No entanto, até as 18h de ontem, os protestos continuavam, e apenas alguns policiais saíram para trabalhar a pé.

A onda de violência não está concentrada apenas na capital. Em Vila Velha, cidade colada a Vitória, diversas lojas foram arrombadas e saqueadas. Os municípios de Serra, Cariacica, Guarapari e Cachoeiro de Itapemirim também estão sofrendo com a onda de medo e violência. A foto abaixo retrata bem o cenário de caos que se instalou.

violencia no espirito santo

Tenho uma ligação especial com o Espírito Santo pois meu tio-padrinho vive lá, tenho duas primas que nasceram lá e é um estado que passei várias férias da minha vida. Guarapari por exemplo é sinônimo de férias e feriado para grande parte dos mineiros. Chamamos de GuaraParis, rs. Por isto não poderia deixa passar esta oportunidade de analisar o caso mais a fundo.

Medo, Esperança e Desamparo

Esta onda medo e desamparo sentida pela população do Espírito Santo me fez lembrar de uma palestra do professor Vladimir Safatle que assisti pouco tempo atrás no Café Filosófico. Esta palestra pode ser encontrada neste vídeo e foi intitulada “A Lógica do Condomínio”. Encontrei também no site da UFBA uma palestra intitulada de “Medo, esperança, desamparo: por uma política dos afetos” do mesmo autor e que pode ser lida na íntegra neste endereço.

O que mais me chamou atenção no estudo do professor foi o caráter de “bombeiro” e o “piromaníaco” do Estado na vida social que me remete aos acontecimentos mais recentes no Espírito Santo. Para ele, o medo é o fundamento para a constituição do poder de Estado. Pode se dizer do poder de Estado – o poder hobbesiano – que ele é o “bombeiro” e o “piromaníaco” da vida social.

Ele é o bombeiro porque fornece a todos o indivíduos a possibilidade da garantia da experiência da segurança, num pacto em que eles fornecem ao Estado a possibilidade do uso da violência devido à garantia da segurança. Por outro lado, o Estado é o piromaníaco, porque ele deve lembrar a todo momento à sociedade que, se ele, Estado, não estivesse lá, a insegurança reinaria. Ele deve lembrar a todo momento da insegurança na vida social. Ele deve gerir a insegurança: é um gestor da insegurança total. Porque não se trata de livrar a sociedade dos seus fantasmas da insegurança; trata-se de geri-los no interior de uma lógica própria de legitimação do Estado.

A Esperança

Safatle discorre também sobre esperança. Para ele, quando tentamos nos contrapor ao modelo de sociedade construído pelo medo como afeto, fazemos apelo a um outro afeto: a esperança. Ele lembra  das discussões de Spinoza  sobre a complementaridade entre esses dois afetos: não há esperança sem medo, nem medo sem esperança.

A esperança nada mais é que a expectativa de um bem que pode ocorrer no futuro. Enquanto o medo nada mais é que a expectativa de um mal que pode ocorrer no futuro. Só que quem tem a expectativa de que um bem pode ocorrer, também teme que esse bem não ocorra. Quem tem expectativa de um mal que pode ocorrer, também tem a esperança de que esse mal não ocorra.

O Desamparo

Safatle recorre a Freud para explicar o desamparo como afeto político. Para ele, há uma diferença muito clara entre medo e desamparo: medo é a expectativa que eu produzo diante de um objeto de perigo que eu sou capaz de representar, já o desamparo é uma reação a um objeto, a um acontecimento, que eu não consigo representar, porque ele quebra o meu sistema de representações.

O desamparo equivale ao desabamento da ação: eu não consigo mais agir, momentaneamente, porque eu não sei mais como agir. porque eu não sei mais como responder. Porque eu não consigo representar de maneira adequada aquilo que parece como objeto do meu afeto.

O Discurso da Insegurança

OK, já entendi medo, esperança e desamparo.  Mas o que isso tem a ver com a experiência política? O que significa elevar o desamparo a afeto político central?  Para Safatle, significa compreender que o campo da experiência política é marcado por acontecimentos imprevistos, que quebram as normatividades vigentes e que impõe a construção de novas normatividades.

Esse tempo só pode ser vivenciado lá onde o discurso político já não é mais o discurso da segurança – que na verdade é o discurso da gestão contínua da insegurança, que faz com que as figuras de autoridade apareçam como as figuras de um amparo possível, que podem nos amparar, que prometem para nós um momento, uma situação de tolerância zero com a insegurança, em que nenhuma insegurança nos afetará.

Em suma, diante de um ato de terror, de uma onda de violência, não importa o que aconteça, qualquer fato servirá como prova de que estamos em um ambiente de insegurança contínua. Trata-se agora de administrar essa insegurança, de alimentá-la, e, através dessa retro-alimentação, fortalecer todo o processo de regulação das garantias civis, das normas de organização de uma situação contínua de exceção, que faz com que não se trate mais de analisar quem nos governa  – porque, afinal, estamos diante de um mal muito mais grave, que coloca todos os nossos problemas sociais em segundo plano.

Polícia! Quem Precisa?

Segundo relatório da organização Anistia Internacional divulgado alguns meses atrás, a força policial brasileira é a que mais mata no mundo. Ouvi dizer também que é a polícia que mais morre no mundo, porém não encontrei estatísticas oficiais sobre esta segunda afirmação.

Agora que a onda de insegurança se espalhou por todo país, até mesmo dentro dos presídios onde deveria haver certa ordem, a sociedade se mostra preocupada com a situação. É comum ouvir dizer que a culpa é da polícia pois ela é ineficiente, possui policiais corruptos, etc. Mas segurança pública deve ser encarada como responsabilidade de todos. A ineficiência da polícia é só uma peça do quebra-cabeças.

A Polícia perdeu credibilidade por ações desastradas e violentas no passado, e que  ainda ocorrem no presente, protagonizadas por muitos componentes dos órgãos policiais. Isto trouxe e continua trazendo consequências negativas e depreciativas para a corporação. Contra fatos não há argumentos.

Contudo, ruim com ela, pior sem ela. Os episódios de barbárie registrados nos últimos dias nos dão sinais do que seria uma sociedade desamparada, sem a figura de uma autoridade central que possa coibir os atos violentos de uma sociedade repleta de indivíduos com pouco caráter moral.

Sim, o problema é muito mais profundo. O problema real não está na loja sendo saqueada, isto é apenas uma consequência. A polícia não educa, a polícia apenas coíbe. E como todos sabemos, a falta de moral não está apenas no alto dos morros, está também no Planalto, nas altas diretorias de grandes grupos privados e dentro das nossas próprias casas.

 

35 comentários em “Violência no Espírito Santo – O Poder Hobbesiano: O Estado é o “Bombeiro” e o “Piromaníaco” da Vida Social

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Viraremos um queijo suíço, buraco pra todo lado, kkk

  1. Guardião do Mobral Responder

    Uó, fiz meu relato no blog. É inimaginável o que vivemos aqui no ES.

  2. mvelosoqueiroz Responder

    É inacreditável que isso está acontecendo nos dias de hoje, tomara que a segurança seja restabelecida logo. Fiquei horrorizado com as imagens gravadas, parece mais um país em guerra civil, e não um lugar com a polícia militar “em greve”.

    http://antipoda.com.br/

  3. Cowboy Investidor Responder

    Cada dia que passo vejo que o Brasil não tem jeito. O povo é o reflexo dos governantes, ou seja, a maioria são corruptos.
    Se tiver oportunidades eles roubam na cara dura.

    Abraços.

    • Josival Jesus Responder

      O fato de não haver policias nas ruas não significa que deva haver roubos e essas barbáries. O Brasil está longe de ser civilizado..Talvez nosso netos vejam algo um pouco diferente…Triste

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Acredito que a geração atual não tem mais solução, mas novas gerações virão sim. De qualquer forma, a geração atual pode começar a mudar a situação. Cabe aos pais. “O mundo que você deixará para seus filhos depende exclusivamente dos filhos que você deixará para este mundo.”

      Abraço!

  4. Marujo Responder

    Esse é o retrato do Brasil. A corrupção desenfreada, estados falidos e população a merçê dos vagabundos de plantão.

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Sim marujo, mas seriam estes bandidos vítimas do próprio sistema? Pessoas nascem criminosas?

  5. Marcelo Barbarossa Responder

    Em minha opinião o Hobbes é o pior filósofo de sua época: defendeu o Estado absoluto como protetor dos cidadãos e suas ideias abriram caminho para o cerceamento das liberdades individuais.

    Abraços!

  6. Gê Viana Responder

    A mesma PM que pede apoio da população é a que repele manifestações de outras categorias. Entendo que as reivindicações são legítimas, mas a minha segurança não pode ser moeda de troca. E que finalmente a PM entenda de que lado ela está.
    Outro dia te falei que as contas do ES estavam em dia, mas a custo dos servidores. Tá aí o resultado.
    E é preciso aproveitar o momento pra falar sobre a desmilitarização da polícia. Não dá pra apoiar a PM do jeito que ela trabalha. Tá tudo errado!

    • Investidor de Risco Responder

      Como a desmilitarização da polícia pode contribuir para a sua segurança? Por que chamaram o exército e não a polícia civil para dar um jeito nesse bando de arruaceiro? Daqui a pouco vc vai sugerir o desarmamento da polícia também… Aí ficam só os bandidos armados… Tá te brincadeira né?

    • Ge viana Responder

      Não to de brincadeira. Se você não sabe o que significa a desmilitarização da polícia, faça uma pesquisa antes de falar. Grata.

    • Investidor de Risco Responder

      Sei sim o que significa. Vc argumentou que sua segurança não pode ser moeda de torca. Por isso estou aguardando sua resposta. Como a desmilitarização da polícia pode melhorar sua segurança?

    • Investidor de Risco Responder

      De onde vc tirou que eu disse que desmilitarização da polícia é a mesma coisa que desarmar a polícia?
      Olha a frase que eu escrevi: “Daqui a pouco vc vai sugerir o desarmamento da polícia também…”
      Traduzindo: Daqui a pouco, além de falar de desmilitarização você vai querer propor adicionalmente o desarmamento da polícia…
      Mas ok. esquece desarmamento (ainda bem que vc não defende isso).

      vamos lá… Como a desmilitarização da polícia pode contribuir para a sua segurança? Continuo aguardando suas razões.

    • Investidor de Risco Responder

      Vc não vai encontrar uma razão para justificar que a desmilitarização da polícia vai melhorar sua segurança.

      Minha razão para ser contra a desmilitarização é muito simples: não confio em governantes, não confio em políticos (nem de esquerda, nem de direita, nem de centro). Sendo assim acho péssima a ideia de colocar a polícia sob gestão dos governantes. Prefiro a polícia onde ela está, sob a guarda das forças armadas. Se quer unificar, que unifique sobre a tutela das forças armadas e não dos governos.

      obs: não tenho nenhuma ligação com militares e nao defendo governos militares.

    • Fernando Responder

      Não consegue dialogar, tem que “ir” mesmo.

      A PM repreende o vandalismo. Fui a vários protestos pacíficos e nunca vi a PM repelindo nada. E o ES não precisa de metade dos seus funcionários públicos, assim como o Brasil também.

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Esta é outra discussão que não tenho opinião formada “desmilitarização da polícia”. Se alguém tiver bons estudos para indicar ficarei grato.Por enquanto não tenho nada a dizer, rs

  7. The Bat Responder

    Quem é libertário (chamo de liber-otário) pode realizar seu sonho de viver sem estado, tudo livre, polícia privada, justiça privada.

    • Investidor de Risco Responder

      Não sou libertário, mas com tudo livre, qq um está livre pra comprar armas… Quero ver esse bando de arruaceiro fazer essa bagunça sabendo que tem gente armada por todos os lados… Fez merda é tiro vindo de tudo quanto é lado!

    • Fernando Responder

      Claro. Só precisam liberar as armas pra população se defender. Ou não? Ou, na sua concepção do que é libertário (ou liber-otário nesse caso), os bandidos têm o monopólio da força? Vai ver estou respondendo um funcionário público, daí só estou perdendo tempo.

      Espero que isso não aconteça no seu estado e você pare de falar abobrinha.

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      “Porque não se trata de livrar a sociedade dos seus fantasmas da insegurança; trata-se de geri-los no interior de uma lógica própria de legitimação do Estado.”

  8. Investidor de Risco Responder

    Vejo a foto dos ladrõezinhos e confirmo: o brasileiro merece os políticos corruptos que elege e por consequência merece os serviços públicos de péssima qualidade que lhe são ofertados.
    Oh povinho!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Sim IdR!
      Merecemos nossos políticos. Somos todos corruptíveis, e não ha como colocar a culpa só nos governantes. É um problema estrutural e sistêmico.
      Abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Opa André!
      Não tenho opinião formada sobre o assunto de armamento da população. Fico imaginando as cidades se transformariam em um faroeste. Você saber como anda as estatísticas lá nos E.U.A.? Ainda não parei para analisar este modelo, mas mesmo que um dia isto seja liberado aqui no Brasil, não sei se compraria uma arma. Para você ter uma ideia, meu pai tinha um revólver, que guardava no cofre. Porém, criança é curiosa. Um dia descobri o segredo do cofre, sabe como fiz isto? Observando como meu pai girava a roda do segredo. E um belo dia, quando meu pai estava trabalhando, peguei o revólver para mexer. Olha o perigo disto.
      Abraço!

    • ANDRE R AZEVEDO Responder

      Uó, o ES virou coisa muito pior do que um faroeste. No faroeste, as pessoas tinham o direito de se defender. Hoje, desarmadas, estão à mercê dos bandidos. Todos os comerciantes que perderam todo seu estoque, poderiam ter inibido esses atos se dispusessem de uma arma na loja.

      Acidente com armas de fogo ocorrem, sem dúvida, mas em um nível muito menor do que explora o senso comum. Mesmo nos EUA, existem muito mais mortes acidentais por afogamentos de piscinas, drogas, trânsito, quedas de alturas, etc. Imagine tudo o que deveria ser proibido para evitar acidentes… O ponto é que o número de mortes por bandidagem cairia muito mais do que possíveis aumentos de acidentes por armas de fogo. Temos que ver a floresta inteira, não somente algumas árvores.

      É muito comum as pessoas citarem os EUA como exemplo de país onde a arma é liberada, pois é mais fácil criar subterfúgios para posicionar-se contra. Por que não usam a Suíça, onde cada cidadão recebe uma arma para manter em casa após sair do exército?

      Abração!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Não conhecia este caso da Suíça, mas também fica difícil comparar com outros países, cada país tem sua realidade. Se uma liberação aqui no Brasil seria bom ou ruim eu não sei, não faria um prognóstico baseando em experiências de outras nações, acho que só testando mesmo, rs.
      Abraço

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