Como Investir em Tempos de Crise Severa? No pain, no gain…

Um amigo entrou em contato comigo via WhatsZap para conversar sobre o atual momento de crise nos mercados. Ele está em dúvida sobre qual decisão tomar na sua carteira de investimentos. Então tomei a liberdade de publicar aqui o início desta discussão, pois sei que muitos dos colegas que seguem este site também possuem dúvidas neste momento. E nada melhor que compartilharmos experiências para chegarmos às nossas próprias conclusões de maneira mais fundamentada.

Segue o post do amigo…

Eu na verdade tô posicionado já em renda variável (com fundos) há pouco tempo. Infelizmente peguei só o finzinho do ano passado – eufórico – e, como todo mundo, tô vivendo esse momento do susto desde fins de janeiro…

A exposição é relativamente baixa em renda variável, mas os fundos Multiestratégia e Ações tomaram a porrada grande e desde a última semana os de renda fixa estão repercutindo, com rentabilidade negativa (cenário que era impensável há 3 meses).

Eu contrato um serviço de consultoria (DLM) e acompanho o cara de lá há cinco anos, já. Tenho empatia e gosto do atendimento e serviço dele. (Quase) Todos os gestores de fundos de ações tem falado que “a bolsa tá barata”, é hora de entrar, com parcimônia (aos poucos), mas tem oportunidades pra quem tem caixa e mira no médio/longo prazo (o que é meu caso).

Em números absolutos perdi uma grana nas últimas semanas, mas não é um dinheiro – felizmente – de que preciso pra agora. Então não realizei a perda…

Na prática, esse meu corretor tem sugerido – até por provocação minha, que tava incomodado com só ficar olhando, sem fazer nada – um rebalanceamento na carteira, saindo um pouco do fundo de renda fixa (HEDGE CONSERVADOR) e entrando parte no Ações, parte no Multiestratégia.

Acho que faz sentido; tô prestes a concordar e dar a ordem de realocação, mas ficam os incômodos de (1) ter que lidar com cenário de volatilidade, sem ter certeza onde está o fundo do poço e (2) mesmo tendo confiança pessoal no corretor, ficar meio com pé atrás quanto à independência dele como aconselhador.

Alocação atual: 18% (Fundo Renda Fixa) / 15% (Fundo Multimercado) / 4% (Fundo Ações)
Realocação proposta: 13% (Fundo Renda Fixa) / 19% (Fundo Multimercado) / 5% (Fundo Ações)

Meu comentário…

Ao ler o post do meu amigo relembro do meu início na bolsa lá nos idos de 2008. Eu entrei no mercado em maio de 2008. Pense em um timing ruim…

entrei na bolsa

Mas o meu amigo está em uma posição infinitamente melhor que a minha. Quando entrei fui com tudo, peguei todas minhas economias (ainda que na ocasião fosse pouca coisa) e comprei fundos de ações da Petrobras e da Vale. Então, quando a crise estourou e o mercado começou cair, não pude fazer absolutamente nada. Mesmo o dinheiro novo que entrava, não podia comprometê-lo pois a reserva de emergência que tinha era de apenas um mês. Quando você se vê em uma situação adversa da economia como a que temos agora, o mais sensato é aumentar a reserva de emergência.

Bom, estando sem caixa e sem poder fazer absolutamente nada, só me restava observar, então aconteceu isto…

recuperacao da bolsa

Ufa! Não pude aproveitar nenhuma promoção nas bolsa mas vou enfim “recuperar” o dinheiro que perdi. Só que não…

queda da bolsa

E tome queda… 2011, 2012, 2013, 2014, 2015… o resto da história vocês já conhecem.

Bolsa de valores é isto, sobe, cai… sobe, cai… não há como ser diferente. E a graça é esta mesmo, a economia é de certa forma cíclica, não previsível, mas formada de altos e baixos.

A grande questão é que dificilmente vamos conseguir acertar o topo e o fundo. Minto, geralmente acertamos o topo: entramos no topo. Como eu entrei, e como meu amigo entrou. O mercado contribui com isto, a mídia contribui com isto. Vemos capas de revistas (veja aqui), lemos matérias na internet, ouvimos no Jornal Nacional: bolsa bate recorde, bolsa quebra recorde, renda fixa morreu, poupança perde dinheiro, Brasil vai decolar, Brasil é a bolsa da vez, e por aí vai.

Então entramos no topo, o que fazer? No meu caso eu sentei e chorei. No caso do meu amigo, digamos que ele está com a faca e o queijo na mão, basta escolher o tamanho do pedaço para cortar e comer.

O tamanho do pedaço eu não sei, cada um tem um apetite. Só a própria pessoa pode decidir. E não vai depender do perfil de risco (conservador, moderado, arrojado). Não se engane, não depende disto, depende simplesmente do quanto de dinheiro você consegue perder sem se desesperar.

Por que eu digo isto? Simplesmente porque o fundo não está dado. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos meses. Se alguém disser que a bolsa vai voltar para 100 mil desconfie. Se disserem que vai para 40 mil desconfie. Ninguém sabe de nada, absolutamente nada. Mas que ambos patamares podem ser alcançados, isto pode.

Porém esta é a graça do mercado, se soubéssemos que vai voltar para 120 mil ninguém ia vender e a bolsa não sairia do lugar, idem se soubéssemos que iria para 20 mil. O que move o mercado são as incertezas e os “achismos”: vou comprar porque acho que vai melhorar lá na frente, vou vender porque não tenho certeza do futuro. Então, com pessoas em pensamentos opostos, sai negócio e o mercado anda.

Mas vamos deixar de bla bla bla e voltar ao caso do meu amigo. Ele está tirando 5% da renda fixa, que nem é tão fixa assim pois trata-se de um fundo de crédito privado e tem muitos fundos deste tipo apresentando rentabilidade negativa, e distribuindo este valor em fundos de renda variável. O simples fato dele estar fazendo a realocação já é algo salutar. Ficar parado é que não pode. Alocação de ativos serve para isto. Eu fiquei parado na crise de 2008 porque não tinha o que fazer, comecei errado, aprendi. Quanto vai tirar daqui e colocar ali não posso dizer, é uma análise pessoal baseada no quanto ele suporta perder caso o mercado vá em busca dos 40 mil pontos. E ser for nos 40 mil pontos só posso dizer uma coisa: zere todo o fundo de crédito e jogue no fundo de ações, rs.

O Que Estou Fazendo com Meus Investimentos?

Na crise de 2008 eu aprendi uma lição: tenha caixa! Então, nesta crise do corona vírus estou usando meu caixa, usando mais que deveria pois já está quase no final, rs. Estou comprando duas coisas: BOVA11 e ações de alto risco. BOVA11 é para não ter que esquentar muito a cabeça selecionando blue chips. Já ações de alto risco é pura teimosia. Por exemplo, comprar coisas mais depreciadas como AZUL4 e PRIO3 para tentar pegar uma volta de 200%. E quem garante que estas empresas não vão quebrar?

Eu gosto de montar meu próprio portfólio, não que isto será melhor que delegar à algum gestor de fundos. É simplesmente porque eu gosto. Também não aconselho fazer gestão própria se você não tem tempo para acompanhar o mercado. Existem profissionais treinados e certificados para isto. Porém não é garantia de que vai funcionar, nesta crise o que mais vimos foram gestores pegos de surpresa. A natureza desta crise é tão distinta das outras que anteriores, e tão mais rápida e fulminante, que quase ninguém conseguiu sair ileso. Uns perderam mais, outros perderam menos, mas a maioria perdeu.

É uma crise que deixará muitas lições. Se em 2008 eu aprendi a ter caixa, nesta crise eu aprendi a ter proteção. E proteção temos muitas: dólar, ouro, derivativos… Por incrível que pareça eu até estava de certa forma protegido. Antes do carnaval tinha feito uma posição vendida em derivativos da bolsa americana. Mas inexperiente que sou, consegui ganhar só 14 mil reais nesta operação quando a bolsa caiu. Pouco amenizou as centenas de reais que perdi nos dias que se seguiram. Mas não há que se lamentar, tá na chuva é pra se molhar não é mesmo? No pain, no gain…

4 comentários em “Como Investir em Tempos de Crise Severa? No pain, no gain…

  1. Zezinho Responder

    Eu fiz um “lucro acidental” de 2.500 reais (capital 30.000 reais) no mercado FOREX com isso.
    Mordi a língua: sempre achei FOREX pura especulação.
    Mas prefiro ficar longe por enquanto.
    Abs!

  2. André Responder

    Fala Uó!

    “O tamanho do pedaço eu não sei, cada um tem um apetite”

    Essa sua frase diz tudo. Rebalanceamentos, preservando parte do caixa é a melhor opção. Mas a pessoa já deveria definir o tamanho (%) de alocação da cada ativo previamente, conforme seu apetite. Fazer no estilo porra louca, de qq jeito, sem método, não rola.

    A realocação que fez tb não me pareceu ideal. Se o fundo de CP dele investia em juros longos, perdeu muito também. Por isso a importância do caixa e dos ativos de câmbio (dólar e ouro). As melhores realocações nessa época devem vir desses pilares.

    Abraço!

  3. Felipe Responder

    Vi em algum lugar (acho que foi no tio ricco) uma frase que é mais ou menos assim: ‘Agora podemos apostar que eventualmente vai melhorar e comprar boas empresas, ou achar que é o fim da humanidade.’ Se der ruim, nao vamos estar aqui mesmo, negocio é comprar 😛

  4. Douglas Costa Pinto Responder

    verdade, o negócio não pode parar. Mas, para mim e acredito que para muitos outros que não são experts no assunto fica difícil fazer esse trabalho sozinho. Acho que o segredo é ter uma empresa ao seu lado e continuar estudando muito. Hoje trabalho com a VLOM (pt.vlom.com) ela ainda não é muito conhecida mas to gostando muito. Ao mesmo tempo eu não paro, estudo muito para saber tudo que acontece. Vamo brasiiiil!

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