A Criança Fora da Caixa…

Nesta semana o Uozinho completou 3 anos de idade. Como passa rápido. Outro dia mesmo estava aprendendo a sentar (com 6 meses), aprendendo a andar (com 1 ano), aprendendo as primeiras palavras (com 1 ano e pouquinho). Logo em seguida já estava desenvolvendo a curiosidade e fazendo as primeiras perguntas. Esta é sem dúvida uma das fases mais gostosas, dialogar com uma criança respondendo suas dúvidas é muito gratificante. Acredito que a curiosidade é o sentimento principal que faz o ser humano se desenvolver cada vez mais. Curiosidade tem a ver com desejo por conhecimento, de uma forma natural e não obrigada.

Há dois meses o Uozinho começou a frequentar uma escola, ou seja, um pouquinho antes de completar 3 anos já estava entrando em contato com coleguinhas e professores. As crianças hoje em dia estão frequentando escolas bem mais cedo do que antigamente. Eu mesmo só iniciei minha “vida acadêmica” com 4 anos. E quando você coloca um filho em uma escola surgem muitas dúvidas e angústias. Você passa a questionar qual o papel da escola, qual o seu papel como pai e como irá funcionar esta interface escola-pais para que as coisas funcionem da melhor forma possível.

Quando criamos filhos temos uma tendência natural a transferir para eles algumas das nossas frustrações (desejos não satisfeitos). Por exemplo, se eu não aprendi a nadar (que é realmente o meu caso, rs) irei transferir este desejo ao meu filho. Se o meu sonho era ser jogador de futebol então talvez irei desejar que meu filho se torne um. Se bem que tenho percebido que ser cantor sertanejo hoje em dia é a melhor opção, o Uozinho também percebeu isto e já está cantando algumas músicas, rs…

Temos também a tendência natural a achar que nossos filhos são abençoados e superdesenvolvidos. O Uozinho por exemplo já sabia o alfabeto inteiro (incluindo as letras K, y e w) antes dos dois anos de idade. Já sabia que o sinal verde é para arrancar e o sinal vermelho para parar. Que esquerda era para cá e direita para lá. Mas quando você coloca seu filho em contato com outras crianças percebe que ele tem sim pontos que se sobressaem mas tem outros que precisam ser desenvolvidos.

O fato é que todo mundo tem suas aptidões e deficiências. As deficiências você tenta desenvolver ou simplesmente passa a conviver com elas. Já as aptidões você tenta explorar ao máximo. Todo mundo é muito bom em uma ou duas coisas. Basta você descobrir qual é sua real vocação que o céu será o seu limite. Mas é um processo tortuoso, até descobrir você irá trombar em algumas quinas. Mas o que está por trás do desenvolvimento? Simples: curiosidade e criatividade.

Como a Escola Acaba com a Criatividade

Não sou eu que está falando. Vários estudiosos são categóricos em dizer que o sistema de ensino atual não é eficaz. Pelo contrário, é um sistema que tira potencialidades dos indivíduos em vez de desenvolver. Não que seja um modelo criado com este fim, mas simplesmente porque está obsoleto e ultrapassado.

Você já deve ter ouvido a frase: “pense fora da caixa”. Esta frase simplesmente é sintomática: Ninguém nasce dentro de uma caixa, seu filho que está entrando agora na escolinha não está dentro de uma caixa. Mas a partir do momento em que ele começa a dar os primeiro passos para uma sala de aula ele está entrando para uma grande caixa, está iniciando todo um processo de “encaixotamento” que irá passar pela pré-escola, escola fundamental, escola secundária, escola superior, etc…

É uma grande caixa que vai se formando em torno do pensamento do indivíduo. Até nós pais contribuímos para a formação desta grande caixa. Basta você parar e contar quantos “nãos” você diz para o seu filho por dia. Claro, o “não” é necessário, o “não” educa, mas muitas vezes estes “nãos” são simplesmente palavras desmotivadores e limitantes. Que irão de uma certa forma limitar a curiosidade e por consequência a criatividade dos filhos.

the wall

All in all it’s just another brick in the wall

A curiosidade é o motor do conhecimento. A criatividade é a aplicação da imaginação e da intuição que foram estimuladas pela curiosidade para o desenvolvimento de alguma coisa. Crianças nascem criativas, cabe aos pais e escolas estimular esta criatividade e não limitar. A própria Wikipédia define criatividade da seguinte forma:

Acredita-se que o potencial criativo humano tenha início na infância. Quando as crianças têm suas iniciativas criativas elogiadas e incentivadas pelos pais, tendem a ser adultos ousados, propensos a agir de forma inovadora. Quando as pessoas sabem que suas ações serão valorizadas, tendem a criar mais. Quando sentem que não estão sob ameaça (de perder o emprego, por exemplo), as pessoas perdem o medo de inovar e revelam suas habilidades criativas.

Já vinha estudando este assunto há algumas semanas e por coincidência me deparei com um artigo no site Mises que veio ao encontro deste tema. O texto cita o educador Ken Robinson que afirma que nosso atual sistema educacional acaba com a criatividade e a curiosidade naturais dos jovens ao forçá-los a se configurar dentro de um molde acadêmico unidimensional. Esse molde pode funcionar bem para alguns — principalmente, como diz ele, para aqueles que querem se tornar professores universitários.

Mas esta observação não é nenhuma novidade. Por exemplo, a letra da música The Wall do Pink Floyd de 1979 já dizia isto. Décadas atrás, o conhecido educador e defensor do ensino doméstico (homeschooling) John Holt escreveu em seu livro “Como as Crianças Aprendem”:

Queremos acreditar que estamos enviando nossas crianças para a escola para que elas aprendam a pensar. Mas o que realmente estamos fazendo é ensinando-as a pensar de maneira errada. Pior: estamos ensinando-as a abandonar uma maneira natural e poderosa de pensar e a adotar um método que não funciona para elas e o qual nós mesmos raramente usamos. Ainda pior do que tudo isso: nós tentamos convencê-las de que, ao menos dentro da escola, ou mesmo em qualquer situação em que palavras, símbolos ou pensamento abstrato estejam envolvidos, elas simplesmente não podem pensar. Devem apenas repetir.

Por meio deste processo de educação compulsória e massificada, a curiosidade infantil e o impulso natural pelo aprendizado são continuamente substituídos por um sistema de controle social que ensina às crianças que seus interesses e observações não mais importam. A conclusão do artigo é simples e direta:

A conformidade e a submissão podem ter sido os objetivos sociais e econômicos dos arquitetos do modelo escolar compulsório criado no século XIX, feito para funcionar de cima para baixo. Mas a economia do século XXI exige criatividade e adaptação. Hoje, acima de tudo, é necessário um modelo voltado para o aprendizado, que privilegie a capacidade de raciocínio próprio e a criatividade, e não um modelo de ensino compulsório voltado para escola.

A Esteira Rolante, O Cinto do Batman e a Cauda Longa

Já postei um vídeo do Murilo Gun aqui no blog em um post recente e irei postar agora um outro que vem ao encontro deste tema que estamos tratando. O vídeo é uma palestra proferida pelo Murilo no TEDxFortaleza com o título de “Escolas Matam a Criatividade”. Murilo cita que muitos pensam – erroneamente – que a criatividade é um dom com o qual apenas apenas alguns seres humanos nascem. Para ele todos nós possuímos uma capacidade que é pré-requisito para criatividade: a imaginação. A criatividade nada mais é que a imaginação aplicada à resolução de problemas. À medida que crescemos, temos a criatividade minguada por bloqueios sociais, educacionais e do mercado de trabalho.

Achar que criatividade limita-se a criar coisas totalmente originais e inéditas é bobagem. Nem considero a palavra ‘criatividade’ a mais adequada. Ela já carrega certa pressão, pois traz a ideia de que é preciso criar algo novo para ser criativo. Gosto do termo ‘combinatividade’, que lembra que toda solução criativa é baseada numa combinação de elementos que já existem. O iPhone, por exemplo, só foi possível porque antes já existia o celular tradicional, o palmtop e a bateria de lítio. E a inspiração para combinar é oriunda do repertório que cada pessoa tem. Quanto mais amplo e variado esse repertório, maiores as chances de surgir a ‘combinatividade’.

Qual o Papel da Escola?

Para o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella, antes de mais nada, não estamos diante do crime perfeito, em que só há vítimas. Temos autor também. E essa autoria é multifacetada. Para ele a escola foi soterrada nos últimos 30 anos com uma série de ocupações que ela não dá conta – e não dará. Em uma sociedade em que os adultos passaram a se ausentar da convivência com as crianças, seja por conta do excesso de trabalho ou da falta de paciência para conviver com aqueles que têm menos idade, a escola ficou soterrada de tarefas.

Cortella cita o principal sintoma dos tempos atuais que dificulta tanto as condutadas das escolas quanto dos pais: as famílias confundem escolarização com educação. É preciso lembrar que a escolarização é apenas uma parte da educação. Educar é tarefa da família. Muitas vezes, o casal não consegue, com o tempo de que dispõe, formar seus filhos e passa a tarefa ao professor, responsável por uma classe de 35 ou 40 alunos. A escola passou a ser vista como um espaço de salvação. Neste vídeo, Mário Sérgio Cortella fala das dificuldades e o peso no equipamento escolar:

Há um massacre cotidiano sobre a estrutura escolar. Nós temos que fazer educação física, educação artística, educação religiosa, educação ecológica, educação para o trânsito, educação sexual, educação matemática, educação biológica, oferecer merenda, discutir os valores da sociedade, fazer formação ética, cuidar das crianças, lidar com isso no dia-a-dia, atentar para o fato delas serem pessoas que vêm de famílias indisciplinadas, e quando elas chegam eu sou o primeiro adulto que ela encontra que pergunta “cadê o uniforme, tira esse fone do ouvido, cadê a tarefa que você fez, parte pra cima”, e aí vem dizer Qual é o papel da escola?!

When we grew up and went to school
There were certain teachers who would
Hurt the children in any way they could
By pouring their derision
Upon anything we did
And exposing every weakness
However carefully hidden by the kids
But in the town it was well known
When they got home at night, their fat and
Psychopathic wives would thrash them
Within inches of their lives

We don’t need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!
All in all it’s just another brick in the wall
All in all you’re just another brick in the wall

suno research recomendação

10 comentários em “A Criança Fora da Caixa…

  1. Magrão Responder

    Uó,

    Meu filho foi pra escolinha já com 1 ano e meio. Fica as manhãs em casa e à tarde vai pra escolinha.

    Hoje já tem pouco mais de 2 anos.

    Este assunto da escola compulsória é polêmico. Eu sou contrário a obrigatoriedade e às escolas públicas.

    A criação dos filhos é um assunto soberano dos pais, na minha opinião. Os pais que devem escolher quando o filho vai estudar, onde vai estudar e qual currículo vai estudar.

    Mas, dentro do atual contexto, acredito que o melhor seria implantar os vouchers, mas sem a obrigatoriedade. E, claro, manter um mercado livre de escolas particulares, como já ocorre.

    Abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Boa tarde Magrão!

      Também não concordo com esta obrigatoriedade. Aliás, a maioria das obrigatoriedades neste país são questionáveis. Meu filho entrou para a escolinha com quase três anos, acho que é uma boa idade para se começar a “socializar”, está estudando em uma escola da prefeitura de BH, não sei se você conhece…

      https://www.youtube.com/watch?v=knP1N5dSgQA

  2. IPV Responder

    Buenas Uó! Parabéns ao Uózinho! Escola é complicado mesmo. Ruim com ela, pior sem ela.

    Abraço e sucesso!

  3. ANDRE R AZEVEDO Responder

    Aproveita a fase Uó! Muito legal!

    Agora quanto à educação, é um grande debate. Primeiro precisamos perceber que a maioria dos professores não são mestres educadores, e sim sindicalistas. E muito disso vem da implantação dos métodos do Paulo Freire. Depois, com esse reconhecimento, precisamos debater melhores alternativas.

    Abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Fala André!

      Estes sindicados são mais nocivos que benéficos não é mesmo? Está acompanhando este projeto no senado para o fim do imposto sindical?

      Abraço!

      • ANDRE R AZEVEDO

        Pois é… Tivemos um revés ontem… Vamos ver no plenário… Por isso que digo que com essa mentalidade, o Brasil não tem nenhuma chance de dar certo…

        Abraço!

      • Ábaco Líquido Autor do post

        Não me deixe desanimado André! rs

  4. Aroldo Batista Responder

    Olá Uó, parabéns pelo filhão.
    O meu acabou de completar 3 meses.
    Ser pai foi uma das melhores coiras que aconteceu em minha vida.
    Grane abraço.

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Opa Aroldo!

      Parabéns para você também! Curta bastante porque passa bem rápido cada fase.

      Abraço!

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