A Cauda Longa da Blogosfera Financeira

No verão de 1897, o polímata italiano Vilfredo Pareto, em seu gabinete universitário, na Suíça, dedicou-se ao estudo de padrões de riqueza e renda no século XIX. Aquela era a época de Karl Marx e a questão da distribuição da riqueza estava no ar. Pareto constatou que a distribuição da riqueza era de fato desigual na Inglaterra — boa parte dela se concentrava nas mãos de uma minoria de pessoas. Ao calcular os números exatos, descobriu que cerca de 20% da população detinha 80% da riqueza. Mais importante, ao comparar esses números com os de outros países e regiões, descobriu que a proporção se mantinha mais ou menos constante.

O trecho que você leu acima é a introdução do capítulo 8 do livro “A Cauda Longa – Do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho” de Chris Anderson, editor-chefe da revista americana de tenologia Wired. Para quem não conhece, trata-se de um livro da área de administração (marketing digital) publicado originalmente em 2006 nos E.U.A. com o nome The Long Tail.

Ainda não terminei de ler o livro mas os capítulos que li até agora me deram alguns insights bem interessantes e um deles irei descrever neste artigo. Apesar de não ser um livro recente (já tem mais 10 anos de publicação) os conceitos apresentados no mesmo estão mais do que atuais.

Neste post farei uma análise um pouco mais aprofundada da blogosfera financeira (finansfera) tendo como pano de fundo a popularidade dos diversos blogs que constituem esta comunidade. Para embasar este estudo irei usar como fonte de dados o último ranking de popularidade da finansfera publicado nesta semana no site Web Informado.

blogs de financas e investimentos

O mundo de hoje não é mais o mesmo vivenciado por Vilfredo Pareto em 1897. Apesar da distribuição da riqueza mundial continuar desequilibrada, a concentração financeira na mão dos mais ricos está em franca tendência de alta: Atualmente, 1% da população mundial detém a mesma riqueza dos 99% restantes.

Essa é a conclusão de um estudo da organização não-governamental britânica Oxfam, baseado em dados do banco Credit Suisse relativos a outubro de 2015. O relatório também diz que as 62 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo – em riqueza que toda a metade mais pobre da população global.

Segundo o estudo da Oxfam, quem acumula bens e dinheiro no valor de US$ 68 mil (cerca de R$ 275 mil) está entre os 10% mais ricos da população. Para estar entre o 1% mais rico, é preciso ter US$ 760 mil (R$ 3 milhões). A Oxfam verificou também que a proporção de riqueza do 1% dos mais ricos vem aumentando a cada ano desde 2009.

distribuicao riqueza mundial

No mundo digital em que vivemos atualmente a regra dos 80-20 de Pareto ganha nova forma: falaremos neste artigo sobre o modelo de distribuição conhecido como Cauda Longa. Este conceito se aplica a praticamente todo tipo de mercado, inclusive o mercado de mídia. Com a convergência digital, é muito provável uma reorganização na distribuição da audiência, não apenas por conta de alterações nas características dos meios e na maneira como são consumidos, mas principalmente por alterações no próprio comportamento do consumidor.

A Regra dos 80/20 e a Lei de Zipf

Conforme descrito por Chris Anderson no seu best seller, Pareto descobriu que havia uma relação matemática previsível nos padrões de riqueza em diferentes populações, algo que ele denominou de Lei dos Poucos Vitais. O fenômeno parecia constante no tempo e entre vários países.

Pareto foi um economista brilhante, mas não foi um bom explicador, de modo que não muita gente compreendeu a importância de seu insight. E, assim, ele continuou escrevendo obscuros tratados sociológicos sobre as elites, que, infelizmente, foram explorados no fim de sua vida pelos fascistas de Mussolini. Mas a teoria da distribuição desigual adquiriu vida própria e a observação de Pareto agora é conhecida como Regra dos 80/20.

regra 80-20

Em 1949, George Zipf, linguista de universidade de Harvard, descobriu princípio semelhante na semântica. Ele constatou que, enquanto poucas palavras são usadas com muita freqüência, muitas, ou a maioria, são usadas raramente. Embora não haja nenhuma surpresa nisso, o mais relevante em sua descoberta foi que a relação era mais ou menos previsível e, na verdade, coincidia com a da curva de riqueza de Pareto.

A freqüência com que se usava determinada palavra era proporcional a 1 dividido pela classificação de freqüência do termo entre a quantidade total. Isso significava que o segundo item ocorre com mais ou menos metade da freqüência do primeiro, e o terceiro item com 1/3 da freqüência do primeiro, e assim por diante. Tal constatação é agora chamada de Lei de Zipf.

ulysses joyce

Zipf analisou a obra monumental de James Joyce, Ulisses, e contou as palavras distintas, ordenando-as por frequência. Verificou-se que:

  • A palavra mais comum surgia 8000 vezes;
  • A décima, 800 vezes;
  • A centésima, 80 vezes;
  • A milésima, 8 vezes.

lei de zipf

O mesmo se aplica, conforme descobriu Zipf, a vários outros fenômenos, desde estatísticas demográficas até processos industriais. Ele analisou os registros de casamento numa área de vinte blocos e mostrou que 70% deles se referiam a pessoas que moravam a distâncias não superiores a 30% dessa extensão.

Desde então, outros pesquisadores estenderam a regra a várias outras situações, como átomos no plasma e tamanhos das cidades. No âmago dessas observações encontra-se a ubiquidade das distribuições de lei de potência, a forma 1 /x que Pareto observou pela primeira vez em suas curvas de riqueza.

A Cauda Longa

A Cauda Longa é o nome de uma característica conhecida de algumas distribuições estatísticas (como as leis de potência, distribuição de Pareto, e lei de Zipf). Em distribuições de cauda longa, uma população com alta frequência ou amplitude é seguida por uma de baixa frequência ou amplitude que gradativamente decresce assintoticamente. Os eventos no fim da cauda tem uma probabilidade de ocorrência muito baixa.

O termo Cauda Longa ganhou popularidade como uma maneira de descrever a estratégia de varejo de se vender também uma grande variedade de itens onde cada um vende pequenas quantidades, ao invés de apenas os poucos itens populares que vendem muito.

O modelo da Cauda Longa foi popularizado por Chris Anderson em um artigo na revista Wired em outubro de 2004, no qual ele mencionou a Amazon.com, a Apple e o Netflix como exemplos de empresas que aplicam esta estratégia. Chris então elaborou o conceito no seu livro A Cauda Longa – Do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho.

Os baixos custos de distribuição e armazenamento de empresas que aplicam esta estratégia com sucesso (por exemplo, com a distribuição digital), as permitem obter uma quantidade significativa de lucro vendendo produtos incomuns para várias pessoas, ao invés de se limitar aos poucos produtos populares que vendem em maior quantidade. O conjunto das vendas desta grande quantidade de produtos não populares é chamada de Cauda Longa (long tail).

cauda longa

Dadas opções abundantes, uma grande população de consumidores, e custos desprezíveis de armazenamento e distribuição dos produtos, o padrão de compras da população resulta na demanda dos produtos seguirem uma distribuição de probabilidade segundo uma lei de potência.

Em um artigo de 2006 intitulado “Goodbye Pareto Principle, Hello Long Tail”, Erik Brynjolfsson, Yu (Jeffrey) Hu, e Duncan Simester descobriram que, diminuindo drasticamente os custos de busca, a tecnologia da informação em geral e mercados da Internet em particular podiam aumentar substancialmente a fatia coletiva de produtos incomuns, consequentemente criando uma cauda mais longa na distribuição de vendas.

Eles usaram um modelo teórico para mostrar como uma redução nos custos de busca irá afetar as vendas de produtos. Analisando dados coletados de uma companhia de varejo multicanal, eles demonstraram evidência empírica que o canal da Internet exibe uma distribuição de vendas significativamente menos concentrada do que os canais tradicionais (como as lojas físicas).

Uma regra 80/20 se encaixa bem na distribuição de venda de produtos num canal de catálogo, mas no canal da Internet, esta regra precisa ser modificada para 72/28 para se encaixar. A diferença na distribuição de vendas é muito significante, mesmo levando em consideração variáveis como as diferenças dos consumidores.

A Blogosfera x As Grandes Mídias

Richard Posner, escrevendo numa resenha de livros do New York Times, observou que, praticamente sem custos, qualquer blogueiro tem condições de alcançar determinado segmento do público leitor, muito mais estreito do que o acessível aos jornais e aos canais de notícias. Com efeito, os blogs alcançam os clientes da grande mídia um a um, encaixando-se em nichos ainda mais específicos do que seus precursores da velha mídia.

Os blogueiros são capazes de especializar-se em determinados tópicos com a profundidade a que podem chegar apenas alguns poucos jornalistas das empresas de mídia, uma vez que, quanto mais os jornalistas se especializam, mais jornalistas as empresas teriam de contratar para conseguir cobrir todas as bases.

O que realmente incomoda os jornalistas tradicionais é que, embora os blogs isoladamente não ofereçam garantia de exatidão, a blogosfera como um todo dispõe de melhor máquina de correção de erros do que a mídia convencional. A rapidez com que se colige e se seleciona vasta massa de informações deixa a mídia convencional na poeira.

Além da existência de milhões de blogs e de milhares de blogueiros especializados, os leitores, ainda por cima, postam comentários que enriquecem os blogs, e as informações contidas nesses comentários, como as existentes nos próprios blogs, percorrem a blogosfera à velocidade das transmissões eletrônicas.

A blogosfera tem mais freios e contrapesos do que a mídia convencional. O modelo é a análise clássica de Friedrich Hayek sobre como o mercado econômico reúne enormes quantidades de informações com eficiência, apesar de sua natureza descentralizada, da falta de um coordenador ou regulador geral e dos próprios conhecimentos limitados de que dispõe cada participante.

Com efeito, a blogosfera é um empreendimento coletivo — não 12 milhões de empreendimentos isolados, mas um único empreendimento com 12 milhões de repórteres, articulistas e editorialistas, embora quase a custo zero.

A Cauda Longa da Blogosfera Financeira

O conceito da Cauda Longa pode ser aplicado a qualquer tipo de distribuição estatística. Neste artigo irei aplicar este modelo para entender a distribuição estatística da popularidade dos blogs da finansfera. Para isto irei usar os dados de acessos coletados através da ferramenta SimilarWeb no mapeamento dos blogs de finanças mais populares do Brasil.

A Cauda Longa é uma lei de potência. Como a amplitude de uma lei de potência se aproxima de zero, mas nunca chega a alcançar esse ponto, à medida que a curva se estende até o infinito, ela é conhecida como curva de “cauda longa”. Em relação aos mercados de consumo, as leis de potência surgem quando se tem três condições:

  1. Variedade: há muitos tipos diferentes de coisas;
  2. Desigualdade: algumas apresentam certos atributos com mais intensidade do que outras;
  3. Efeitos de Rede: como propaganda boca a boca e reputação, que tendem a ampliar as diferenças em qualidade (como os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres).

Em outras palavras, as distribuições de lei de potência ocorrem quando as coisas são diferentes, algumas são melhores do que outras, e efeitos como reputação podem promover os itens bons e suprimir os itens maus. Daí resulta o que Pareto denominou “desequilíbrios previsíveis” dos mercados, da cultura e da sociedade: o sucesso chama o sucesso, dinheiro gera mais dinheiro.

A fim de verificar a distribuição estatística da blogosfera financeira, tracei um gráfico de linha colocando no eixo Y o número de visitas do blog (popularidade) e no eixo X o nome do blog ordenando por número de visitas decrescente, isto é, os blogs mais populares estão à esquerda do eixo X. Não por acaso, o gráfico resultante desta plotagem apresentou justamente o formato Cauda Longa como mostrado na figura abaixo:

cauda longa da blogosfera financeira

Nesta distribuição, 24 blogs recebem 80% de todo tráfego da blogosfera financeira. Como a amostra foi de 204 blogs, então podemos considerar que temos aqui uma distribuição de 12/80, isto é, 12% dos blogs recebem 80% de todo tráfego da rede.

Se formos considerar os 10 blogs mais acessados, a distribuição passa a ser de 5/50, ou seja, 5% dos blogs recebem metade de todo o fluxo de visitas da blogosfera. Estes blogs mais acessados estão localizados na região denominada cabeça da curva.

Apesar da teoria da Cauda Longa ter sua origem nos mercados de consumo, isto é, considerando uma relação econômica de oferta/demanda, a mesma pode ser aplicada perfeitamente em qualquer área que envolva relações de necessidades dos indivíduos. Como neste exemplo da blogosfera financeira, os blogs representam a oferta e os leitores representam a demanda. Estamos tratando neste caso de oferta/demanda de informações sobre finanças e investimentos.

Como a oferta é geralmente maior que a demanda, isto é, no caso da blogosfera o número de blogs existentes é muito superior à capacidade de leitura do leitor, então os leitores irão naturalmente escolher seguir os blogs preferidos – geralmente aqueles mais ricos em conteúdo.

Outro fator que devemos  levar em consideração é que grande parte do tráfego a estes blogs é proveniente de buscadores como o Google. Tais buscadores possuem avançados mecanismos de busca e indexação que privilegiam os melhores conteúdos. Outro fator que é levado em consideração por estes robôs de pesquisa é a idade do artigo – geralmente urls mais antigas ganham relevância maior.

Mas o fator de maior peso analisado pelos algorítimos de indexação é o número de links externos que um site recebe, ou seja, quanto mais pessoas estão falando do seu blog mais relevante é seu conteúdo. Este fator por sua vez está diretamente ligado à qualidade do seu conteúdo e à idade do mesmo, em outras palavras, quanto mais ricos são seus artigos e quanto mais tempo eles estão no ar, maiores são as chances de existirem outros blogs referenciando seus posts.

suno research recomendação

23 comentários em “A Cauda Longa da Blogosfera Financeira

  1. Pingback: Blue Chips Americanas Irão Dobrar de Preço até 2030!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Fala Stifler!

      Seu blog está muito bem posicionado mesmo, ele estava fora do meu feed, adicionei agora para acompanhar.

      Abraço!

  2. Construcao Responder

    Ué cadê eu rsrs.

    Não desativei meu blog kkk, so estou dando um tempo!

    To brincando Uo, vi a mensagem para o Madrugassss ai abaixo.

    Legal este trabalho.

    Meu blog como nao posto mais despencou pela metade os acessos, mas pelo menos agora eu tenho mais tempo livre.

    Talvez escrever melhores artigos, tipo, 1 por semana ou 2, melhor que 7 artigos meia boca e repetititvos.

    Abraçao

    Blog Viver de Construcao

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Fala Viver!

      De 1 a 2 artigos por semana está excelente!

      Abraço!

  3. Cleiton Oliveira Responder

    Esse livro realmente é muito bom Uó. A cauda longa é amplamente utilizada em palavras chaves, muitas vezes há palavra chave muito concorrida que estamos interessado em rankear, então podemos utilizar a cauda longa para atrair mais pessoas e ajudar no posicionamento do site.

    Um grande abraço.

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Correto Cleiton, estas palavas chaves são verdadeiras pepitas de ouro, difícil é chegar nelas, rs
      Abraço!

  4. Seu Madruga Investimentos Responder

    Legal, Uó!

    Já tinha ouvido falar da cauda longa num livro que li sobre a história da Amazon.

    Me procurei na cauda longa que você montou e não achei. VDC também ficou de fora. Excluiu os coleguinhas.

    Abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Fala Madruga!

      Os dados do seu blog estão no gráfico sim, mas como são muitos nomes o Excel não mostrou alguns, veja que o nome do meu também não apareceu no eixo X, mas ele foi plotado.

      O Chris Anderson cita muito a Amazon no seu estudo, é seu principal case de abordagem jundo com a Netflix. A grande diferença da Amazon para lojas físicas é que o custo de prateleira (armazenamento) é praticamente zero. Assim a Amazon consegue ter uma oferta de livros significativamente maior que lojas físicas de livros, e por isto consegue explorar com eficiência os livros que estão na Cauda Longa.

      Como site número 1 de compras no mundo, o Amazon faz muitas vendas de livros graças as notáveis descrições de cauda longa dos produtos. A Search Engine Guide descobriu que o Amazon faz 57% das suas vendas através de buscas de cauda longa.

      De forma simples, busca de cauda longa é sobre otimizar para consumidores mais motivados, que definem sua intenção com termos de busca mais longos (normalmente 4 ou mais palavras). Palavras-chave de cauda longa são frases de busca mais focadas.

      Que produtos vendem melhor online em termos de busca orgânica? Bem, produtos que você não consegue encontrar em lojas offline vendem bem online – por isso consumidores procuram por eles na web.

      As vendas do Amazon têm tido uma tendência de crescimento que está correlacionada à decisão da companhia de incorporar otimização de cauda longa.

      Fonte

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Opa!

      Obrigado pela indicação, mas tem a questão dos direitos autorais.

  5. ANDRE R AZEVEDO Responder

    Uó, muito bom! Interessantíssima a relação da teoria com os nichos alcançados pelos pequenos blogs.

    Só não entendi porque o meu não apareceu no gráfico. No post anterior, tanto no ranking das visitar como no ranking Similar Web, o meu está à frente da maioria dos blogs do gráfico rsrsrs.

    Sobre Oxfam: há divergências. Se puder, veja esse texto: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2292

    Grande abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      Fala André!

      Seu blog está no gráfico, mas o Excel deixou de fora do eixo x alguns nomes para não embolar, o meu mesmo que é o segundo da lista não apareceu, rs.

      Obrigado pelo link, irei ler.

      Abraço!

    • Ábaco Líquido Autor do postResponder

      É um assunto interessante Cowboy, recomendo a leitura do livro.
      Abraço!

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